Nas últimas eleições presidenciais, Manuel Alegre obteve uma votação total que rondou o milhão de votos.
O conhecido poeta-caçador, histórico deputado do PS e autor de alguns dos mais brilhantes discursos políticos que a Democracia portuguesa já conheceu (não só no conteúdo, mas essencialmente na irrepreensível forma), partiu nesta sua saga de afirmação pessoal com uma derrota nas “directas” do PS em 2004 (foi batido por José Sócrates), o que não o impediu de, salvo erro em Janeiro de 2005, se juntar ao então recém-eleito líder socialista numa acção de campanha eleitoral aqui em Beja, discursando inflamadamente a favor das virtudes daquele que viria pouco depois a ser eleito primeiro-ministro.
Eleito deputado em virtude dessas eleições, há-de ter decidido que o namoro não teria grande futuro: menos de um ano depois candidatou-se ao cargo de Presidente da República, não obstante o PS ter um concorrente oficial.
Previsivelmente, Cavaco Silva “limpou” a eleição quase sem mexer uma palha, mas Alegre meteu no bolso um milhão de votos que lhe têm rendido bons dividendos políticos.
Criou o inconsequente (até ontem...) MIC – Movimento de Intervenção e Cidadania, que nunca ninguém (talvez até ontem...) soube explicar muito bem do que se trata, e tem feito a vida negra ao seu mais ou menos camarada José Sócrates.
Desde as faltas a votações parlamentares fundamentais (se não estou em erro no Orçamento do Estado para 2008), à votação contra o novo Código do Trabalho, Alegre tem feito as delícias da extrema-esquerda – mais do Bloco, porque nisto de misturas o PCP é muito cuidadoso –, e a vida negra aos seus camaradas do PS.
Apesar de tudo isto, o poeta continua a ocupar o seu lugar de Deputado na Assembleia da República, eleito nas listas do PS, e a manter o seu cartão de militante, ainda que, ao que parece, já nada tenha a ver com este Partido para além de uma egocêntrica atitude de posse.
Ontem, no Fórum das Esquerdas, o abissal ego de Manuel Alegre esteve perto de explodir: ele foi a estrela, foi o homem do dia, foi o protagonista, foi o centro, o princípio e o fim, o A e o Z, o Grande Líder da Esquerda!
Ao tocar nos pontos mais sensíveis das políticas actuais do Governo, como a avaliação dos professores, alimentou a contestação e levou mais longe a sua tarefa de minar o PS por dentro.
Em mais um brilhante discurso, impecável na forma e na dicção, mas previsível e gasto no conteúdo, Alegre afirma que as teses em discussão no certame serão escrutinadas através do voto popular. Ora esse escrutínio não se poderá fazer fora dos partidos.
Com o PCP de fora, orgulhosamente só como sempre, só resta o Bloco de Esquerda. E é aqui que o MIC poderá começar a fazer algum sentido: mais do que o simples depósito onde ficaram congelados todos aqueles votos nas presidenciais, este movimento poderá engrossar a lista que deu origem ao BE. Só não se entende que Alegre seja entronado líder da esquerda utópica e continue militante do PS, partido ultra-pragmático, sem ideologia que se veja.
Muito se tem dito e escrito sobre a coragem de Manuel Alegre, a sua independência e a sua frontalidade, que até há pouco tempo não me atrevia a negar; mas eu gostaria mais de realçar o seu egocentrismo, a sua vaidade sem limites e a sua indignidade ao continuar a servir-se de um partido em vez de o servir, ao autopromover-se de forma meramente egoísta para gáudio de si próprio e da extrema-esquerda com a qual nunca teve nada a ver e que, inocente e ingénua, se deixa levar por meia-dúzia de votos “sacados” ao PS.
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Uma última palavra para o delírio com que o Professor Marcelo “analisou” ontem à noite a questão: só uma mente muito cansada, quiçá pelas parcas horas de sono nocturno, concluirá que este desvio de votos do PS para a esquerda poderá beneficiar o PSD. O PS perde para a extrema-esquerda e ganha votos ao PSD. O PSD continuará, salvo alguma situação imponderável, a perder em toda a linha. E só numa perspectiva de refinado humor político se poderá enquadrar um crescimento do PSD com um desvio de votos para o BE.
Desculpem o simplismo, mas perante as palavras do Professor Marcelo...